sábado, 31 de julho de 2010

Com um ar triste e cansada, Verônica pergunta ao seu amigo Sávio:

- Afinal, o que é ser livre? Ter um trabalho e ter independência financeira para pagar as próprias contas é sinônimo de liberdade?

- Você e essas questões não cansam de dançarem juntas, não é mesmo?

- Não ter hora pra ir e voltar, não ter que pedir permissões, não se preocupar em arrumar a cama, lavar as louças, as roupas, ou varrer o chão pois pode-se resolver fazer quando quiser, como se fosse senhor do próprio tempo. Do que adianta tudo isso se ainda existe uma prisão nos pensamentos?

- Essa conquista, a liberdade dentro de cada um, é que pode ser a tal liberdade de que você tanto procura.

- Gostaria de gozar dela ao menos uma vez e tenho buscado isso com todas as minhas forças. Sinto progressos imensuráveis e sinto-me momentaneamente satisfeita por isso. Porém, quero muito mais, quero poder saber onde piso e porque piso. Quero aprender novamente, quero ter novas experiências da minha maneira e ao meu tempo.

- Essa procura não é só sua, sabia? Não fiques tão aflita. Além disso, acho que essa resposta é um dos sentidos de nossa existência. Muita gente pensa como você, outras acham que já a dominam - alguns até que podem ter alcançado - e tem também aqueles que apenas vivem, não se preocupam tanto com essa conquista. Em alguns casos, ela até vem por conta própria. Faça isso. Viva, Verônica. Esqueça um pouco, se prive menos.

Após alguns minutos pensando em silêncio, com a cabeça levemente abaixada e num tom sério, já se virando para sair, ela responde:

- Estou tentando Sávio.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Homenagem.

1.60 de altura de beleza morena. Seus dentes são perfeitos, sorriso simétrico. Quando sorri, se formam covinhas milimetricamente desenhadas nas bochechas brilhantes. Daquelas de quem tem a pele boa.

Mulher de personalidade forte. Seu signo é Escorpião e faz jus às suas características. É determinada, ousada, perspicaz e intensa. Tem seu símbolo do zodíaco tatuado nas costas, próximo ao ombro. Ato de ousadia de uma adolescência regada pela contra-cultura e obstinação.

É uma trabalhadora guerreira. Acorda cedo e dorme tarde. Viaja horas, há anos, para chegar ao trabalho e mesmo assim encontra ânimo para ir à festas de amigos aos finais de semana. Nessas festas, dança mal, mas dança. Um charme sem ritmo, ou com o ritmo próprio, não sei. Porém, não faz desfeita à uma boa música. Morro de ciúmes.

Parece 20 anos mais jovem, e é. Não pergunte sua idade. Não revela. Acho que nem mesmo sabe quantas primaveras tem. Cuida-se muito bem para isso. É rodeada de cremes, perfumes e exercícios noturnos, mesmo cansada tem força para manter a forma.

Foi batizada por Maria do Socorro. Homenagem católica de sua mãe, grande mulher também (de sangue quente), à santa Maria do Perpétuo do Socorro. Mas não é santa, é humana e isso a faz perfeita.

Em casa, é mãe, filha, pai e comandante da casa. Faz mágica com suas economias e ainda encontra espaço para suas vaidades.

Enfim... uma mulher apaixonante. De encher os olhos. O amor da minha vida.

A chamo de mãe e sou o único no mundo com esse privilégio.

Recentemente, no dia 9 de maio, domingo e dia das mães, trabalhei bastante (até tarde), mas passei o dia ansioso para vê-la, homenageá-la. Fazia um mês que não nos víamos.

Cheguei e fui recebido pelas reclamações de vovó, que xingava sua filha sobre o fato de não estar presente para receber seu filho, que demora tanto para visita-las. Já estou acostumado e, por isso, não dei muita importância. A mulher da minha vida é indomável. Nenhuma data a seguraria em casa, ainda mais num dia de folga. Além disso, na mesa de jantar, ela tinha deixado seu presente para o filho (sim... no dia dela. Das mães).

Tinha preparado um verdadeiro banquete. Uma mistura de especiarias. Torta, bolo, lasanha, macarrão, arroz, feijão etc. O cardápio de minha casa não é tão rico assim, visto que só sei preparar macarrão, arroz e fritar hambúrgueres. Isso quando acerto.

Imediatamente, quase sem dar atenção aos presentes na casa, corri para a mesa e sentei em meio aquilo tudo. Meus olhos se encheram de lágrimas e a boca começou a salivar incontrolavelmente. Comecei comer desvairadamente. Não sabia nem por onde começar.

De repente ela abre a porta. Linda como sempre. Com aquele olhar de quem tenta disfarçar a alegria e saudade. Corri até a porta, lhe dei um cheiro e falei:
- Oi! Feliz dia das mães!

Ela me abraçou, sorriu timidamente e logo fechou a cara, me olhou de cima a baixo e disse:

- Não coma muito porque você está horrível com esse barrigão! Traduzindo: “Obrigado, meu filho, eu te amo.”

Sorri sem dar atenção a sua represália e voltei para a mesa.

domingo, 11 de abril de 2010

Devaneios

Tomando vinho barato, num copo americano, após de ter ganhado uma luta contra a garrafa, que lhe deu um banho por não tinha abridor tendo que pressionar a rolha para dentro do vasilhame, sentou e acendeu um cigarro.

Deu uns tragos e surgiram uns pensamentos.

Pensava na sua trajetória até o presente momento. Relacionou seus pensamentos à conversa com a pessoa excêntrica que conversara há pouco.

Vive um momento triste de sua vida e não encontra resposta para tal. És bem sucedido no trabalho, com os estudos as coisas caminham bem, além de estar cercado de boas amizades.

Realiza um sonho de criança e mesmo assim sente um vazio incomensurável. Hoje, acordou como Gregor Samsa em Metamorfose de Franz Kafka.

Passou o dia deitado, ouvindo as músicas de artistas que nunca faltam nesses momentos de tristeza e solidão. Aqueles maldosos, que ele mesmo escolhe, que dizem: “Vai querido, fique pior”.

Hoje pensou nos signos que a vida traz, na importância de ser grato com as coisas que Deus lhe dá, mesmo as não tão boas assim. Essas, são colocadas em sua vida para lhe trazer algum ensinamento, fazê-lo amadurecer em algum aspecto. É grato pelas coisas ruins também.

Lembrou de acontecimentos importantes, que marcaram sua vida e que o fizeram outra pessoa a partir do fato, como quando assistiu o documentário “Ilha das Flores” e passou a jogar comida em sacolas plásticas nos lixos pensando que estaria ajudando pessoas sem condições a comer uma comida protegida, sem contaminações ou depois do dia em que terminou de ler o livro “O Abusado” e tomou a decisão de que profissão pleitearia para sua vida ou até depois do dia que alguém (aquele que hoje é referência em sua vida) lhe indicou “Crime e Castigo”, posteriormente convidando-o a fazer parte do projeto embrião (que não nasceu) chamado NAIPE (Núcleo de Ação Independente de Pensar e se Expressar), virando, depois, “Ruderais” (que também não nasceu, rs).

Enfim, os pensamentos lhe chegam como tufões e o saudosismo, saudade e otimismo, lhe tomam as vistas. Não sabe muito bem onde quer chegar. Apenas quer agradecer e dizer que ama sua vida e as pessoas que tem importância nela.

Lembrou de algumas frases como: “neguinho”, “quero chorar o seu choro, quero sorrir seu sorriso...”, “dorme com Deus e seu anjo da guarda”, “filho”, “seu gordo”, “vó, é mãe duas vezes”, “e aí maluco”, “vivinho”, “que Deus e Nossa Senhora te acompanhe”, “Estou sem tempo... me diga logo... anda, diga...”.

Talvez porque já esteja sob efeito do vinho barato ou talvez porque seu copo já está vazio e está ansioso para enchê-lo, parou. Sublimou.

E é isso... parou de pensar, ou de tentar alinhar os pensamentos. Abriu um sorriso tímido, colocou uma blusa, um chinelo e foi encher seu copo. Provavelmente tomará uma garrafa inteira.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Clássicos da Literatura

Postagem tirada do blog Sétima Aula.
http://setimaaula.blogspot.com/



Miguel de Cervantes, Oscar Wilde, Dostoievski, Homero e Euclides da cunha são alguns dos grandes autores da nova coleção da Abril, Clássicos Abril Coleções, que traz os grandes nomes em contos, poesia, romance e teatro da literatura mundial.

A coleção, formada por 30 obras em 35 volumes luxuosos, tem capa dura em tecido e miolo em papel nobre, e cada livro vem acompanhado por um caderno de 16 páginas com informações sobre o autor e sua obra. Além disso, todos os livros estão de acordo com a nova ortografia da língua portuguesa.

O lançamento da coleção ocorrerá em fases: em 26 de fevereiro nos Estados de SP e RJ, e em maio nos outros Estados. Um volume novo chegará às bancas toda semana, mas é importante lembrar que cinco das 30 obras estarão divididas em dois volumes. São elas: Crime e castigo, Dom Quixote, Moby Dick, Ilusões perdidas e Os sertões. A edição de lançamento, de Crime e castigo, trará os dois volumes pelo preço de um: R$ 14,90. Todos os demais volumes serão vendidos por R$ 14,90 individualmente.

fonte: http://www.dinap.com.br/site/noticias/conteudo_394212.shtml

A coleção completa:

Vol 1) Crime e castigo - vol. I, Fiódor Dostoiévski
Vol 2) Crime e castigo - vol. II, Fiódor Dostoiévski
Vol 3) Madame Bovary, Gustave Flaubert
Vol 4) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde
Vol 5) Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
Vol 6) A divina comédia - Inferno, Dante Alighieri
Vol 7) Os sofrimentos do jovem Werther, J.W. Goethe
Vol 8) O engenhoso fidalgo D. Quixote da Mancha - vol. I, Miguel de Cervantes
Vol 9) O engenhoso fidalgo D. Quixote da Mancha - vol. II, Miguel de Cervantes
Vol 10) Hamlet, Rei Lear e Macbeth, William Shakespeare
Vol 11) Ilusões perdidas - vol. I, Honoré de Balzac
Vol 12) Ilusões perdidas - vol. II, Honoré de Balzac
Vol 13) Orgulho e preconceito, Jane Austen
Vol 14) O primo Basílio, Eça de Queirós
Vol 15) Moby Dick - vol. I, Herman Melville
Vol 16) Moby Dick - vol. II, Herman Melville
Vol 17) O falecido Mattia Pascal, Luigi Pirandello
Vol 18) O homem que queria ser rei e outras histórias, Rudyard Kipling
Vol 19) Os lusíadas, Luís de Camões
Vol 20) A metamorfose, Franz Kafka
Vol 21) Outra volta do parafuso, Henry James
Vol 22) O assassinato e outras histórias, Antón Tchekhov
Vol 23) O morro dos ventos uivantes, Emily Brontë
Vol 24) Mensagem, Fernando Pessoa
Vol 25) Coração das trevas, Joseph Conrad
Vol 26) O vermelho e o negro, Stendhal
Vol 27) Cândido, Voltaire
Vol 28) Os Malavoglia, Giovanni Verga
Vol 29) Os sertões - vol. I, Euclides da Cunha
Vol 30) Os sertões - vol. II, Euclides da Cunha
Vol 31) Contos de amor, de loucura e de morte, Horacio Quiroga
Vol 32) Infância, Maksim Górki
Vol 33) Grandes esperanças, Charles Dickens
Vol 34) No caminho de Swann, Marcel Proust
Vol 35) Odisseia, Homero

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natal...

Hoje é dia de esticar a lona no quintal dos fundos e começar os preparativos para a festa de logo a noite.

Cada um traz sua contribuição e, quando menos se espera, ve-se a mesa farta, cheia de iguarias.

É dia, também, da entrega do presente ao seu amigo oculto. A família e agregados, em roda, amontoados na sala ficam disputando para ver quem consegue advinhar o maior número de "amigos" e ansiosos para ver os que esses ganharam.

Logo depois, é hora de ligar o Karaokê e começar a festa sem previsão de término.

As crianças dormem em meio a bagunça e perto do amanhacer do dia, os bêbados também escolhem um cantinho. Afinal, ainda terá o almoço de amanhã.

Vem o almoço... todo mundo de ressaca. A mulherada volta com o multirão para lavar as louças e remontar a mesa, com aquilo que não foi consumido no dia anterior.

Alguns aparecem com os presentes da noite anterior e recomeça a festa.

Agora com tempo de término, final alguns precisam trabalhar para garantir a festa do próximo ano.

Esse é o Natal de algumas famílias, tempo de esquecer as inimizades, dividas e infelicidades para comemorar todos juntos, e receber a benção da reza da avó antes do alimento.

Outros Natais não são tão felizes... mas isso não vem ao caso.

Feliz Natal a todos.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Morre Lentamente - Pablo Neruda

"Quem morre?

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade."

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A última volta.

Desceu do ônibus olhando seu relógio no pulso esquerdo - com a mão direita segurava um livro de capa branca e amarela -, já passava da meia noite. Atravessou a avenida e seguiu equilibrando-se no meio fio para não ter que andar na via ou na poça de barro que a recente chuva formara na calçada, em forma de armadilha para seu tênis relativamente novo.

Dobrou à direita e a sua frente apenas as luzes amareladas da rua, em declive, o acompanhavam. Virou à direita novamente, com sofreguidão e apreensivo apertou os passos discretamente. Queria chegar logo em casa. De repente, ouviu o motor da moto se aproximando: sabia que não deveria estar aquela hora na rua. Quando o som já se fazia praticamente ao seu lado, notou que o motorista reduziu a potência do motor para emparelhar a motocicleta. Ouviu-se um único disparo, seco.

Não quiseram acertar-lhe pelas costas, atiraram a queima-roupa na região do peito. Foi muito rápido, não teve tempo de fechar os olhos, caiu para trás com eles abertos e só conseguiu pensar em olhar para o céu. Naquela noite quente, ela estava lá, e chorava com a cena: a lua.

Começou a chover fino, e antes que perdesse totalmente os sentidos, viu um rato atravessar a rua correndo, enquanto a moto se perdia na escuridão que nem ela poderia voltar a iluminar.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Saudades de tempos que não voltam mais

Em um dia chuvoso, andando pelas ruas do Centro, entre aquelas pessoas super apressadas e vendedores ambulantes sempre atentos para "o rapa", cairam na 25 de março.

- Boa tarde, o senhor sabe para qual lado fica o Mercado Municipal?
- Sim, siga em frente e vire a segunda à esquerda.

(...)

Na rua de enfeites natalinos, pensou nas festas que viravam a noite e que, as vezes, acabava tendo que lavar o quintal, pois não tinha sono ou, apenas, para curar a bebedeira.

Logo à frente viu, pela primeira vez - sim, suas visitas nunca tinham dado certo -, o Mercadão e ficou impressionado com sua beleza diante aos outros edíficios ao redor que já estão defasados pelo tempo.

Na rua "K" conheceu o famoso sanduíche de mortadela e enquanto comia olhava ao redor e lembrava de coisas boas. Risadas, conversas, pessoas... Quis que também estivessem ali. Comeria até explodir e conseguiu. O que não era algo tão díficil de acontecer... Teve até espaço para um mousse de chocolate.

A visita o fez voltar no tempo... no tempo que tomava chás gelados com leite no Vale do Anhangabaú; no tempo em que ficava irritadissímo, querendo ir embora rapidamente, na própria 25 de março (que fica próximo ao Mercadão. Se soubesse, ficaria o dia aguardando lá, comendo tudo o que pudesse); lembrou dos natais, dos presentes, da família; de quando a coberta caia sobre seu corpo frio e aquele beijo quentinho na testa de "boa noite, dorme com Deus e com seu anjo da guarda" vinha livrá-lo de qualquer mal.

Lembrou de que, apesar das depressões e pensamentos negativos (e/ou depressiativos), sua vida sempre foi repleta de bençãos e que lembrar-se era o que poderia fazer no presente, pois tudo é cíclico. A vida também é feita de "saudades de tempos que não voltam mais" e que é preciso tentar criar novos momentos inesquecíveis para que ela continue tendo esse valor incomensurável.

(...)

- Obrigado.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Capítulo 1

Subiu as escadas com as mão suadas, apesar do frio, fechando o guarda-chuva às pressas e pensando no que ia dizer, se estava vestido adequadamente e como seria sua vida de trabalhador dali para frente. Entrou e se identificou no balcão de informações como o candidato à vaga de auxiliar. Pediram para que aguardasse alguns minutos.
O cartório estava cheio, com calafrios no estomâgo, sua visão periférica estava temporariamente desativada e não encontrou nenhum lugar para se sentar. Ficou de pé em frente a porta e ao balcão de atendimento (autenticações e reconhecimento de firma).
Notou que os funcionários, lá do outro lado, o olhavam com curiosidade, faziam comentários e sorriam. Ficou mais inseguro e sua gastrite nervosa, que não falta em ocasiões como essa, se manifestou. Tentava adivinhar do que riam, achava que era por causa da roupa. Não se sentia avontade em roupas sociais e saiu de casa acreditando que estava bem vestido com sua mais bela calça, verde musgo, de barra italiana, pois a outra - só tinha duas - era preta e estava desbotada, além de apertada. Sua camisa era cinza e brilhava, era de seda, usava-a para ir às baladas da época que exigiam esporte fino e não autorizavam a entrada com boné, seu melhor amigo. Por alguns instantes pensou que era por isso que riam, sem o boné bordô ou o azul, ficava totalmente nú, com aquele cabelo disforme e crespo.
Depois achou que não era aquilo, tinha cortado há poucos dias, raspado na máquina nº2 e eles não o conheciam com ou sem o adereço, sua segunda pele, não poderiam achar tão estranho, a ponto de rir, pois era o primeiro contato.
seus pensamentos voltaram-se à sombrinha preta que pingava desenfreadamente no chão do recinto e que tinha uma aste quebrada, não dobrava, o que a deixava praticamente aberta, mesmo estando fechada.
Sentia suas orelhas quentes e não aguentava mais aquela situação, queria ser chamado logo para a entrevista, para terminar logo com a agonia.
Olhava disfarçadamente para cada rosto que o olhava do outro lado, através dos quadrados do balcão e após alguns longos minutos foi chamado para sentar-se na mesa de procurações, em breve começaria a entrevista com o oficial...

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Os últimos dias foram difíceis, por motivos evidentes e subliminares. No alto da colina, em época de vento forte e frio com sensações térmicas além do que realmente esta, saiu à varanda de madeira, enrolado em sua coberta com estampa xadrez, com um cigarro no beiço e uma xícara de café, enfrentando de maneira pouco sábia, seu resfriado que nunca falta à visita de velho companheiro dos invernos de “peito cheio”.
Olhava para onde não tinha o que ver devido à ausência de luz e relembrava com um sentimento que palavras não explicam, sua juventude turbulenta.
Recordava das amizades, dos lugares, dos amores, dos romances, dos livros e de tudo o que influenciou sua vida e suas crenças. Alguns pensamentos traziam mais saudades do que outros, mas se tivesse uma nova oportunidade faria de maneira diferente. Só para ver onde estaria hoje. Queria saber se o sentido que buscava há tantos anos atrás fosse realmente a solidão que daria a resposta vã.
O cigarro já estava no fim, restava-lhe poucos tragos, não mais que dois, quando lembrou da vidente que passará por seu caminho em uma tarde ensolarada de um verão distante, quando ainda jovem, jogava futebol com seus amigos, que não sabe se estão vivos e que, conseqüentemente, tem ainda menos informações sobre seu paradeiro. Ela parou o garoto e suas palavras emocionadas nunca saíram de sua cabeça confusa. Disse que, infelizmente, morreria cedo, porém pela ética da profissão, não quis dizer qual seria a causa, para isso, era necessário que pagasse pelo serviço espiritual. Sem dinheiro, como sempre, bastou saber que não viveria muito e saiu.
A tosse já fazia ruídos à comunicação interna e decidiu voltar para perto da lareira, lá o clima era mais agradável. Antes de entrar, dando o terceiro trago no cigarro que já quase queimava seus lábios, pensou que se talvez não tivesse fugido e se escondido nas colinas distantes da civilização, já tivesse passado de plano e a vidente teria acertado em sua previsão, que não era de todo erro, pois já não se pode afirmar que está vivo, apenas espera a morte chegar. Sua covardia não permite que faça isso com suas próprias mãos.