A última volta.

Desceu do ônibus olhando seu relógio no pulso esquerdo - com a mão direita segurava um livro de capa branca e amarela -, já passava da meia noite. Atravessou a avenida e seguiu equilibrando-se no meio fio para não ter que andar na via ou na poça de barro que a recente chuva formara na calçada, em forma de armadilha para seu tênis relativamente novo.

Dobrou à direita e a sua frente apenas as luzes amareladas da rua, em declive, o acompanhavam. Virou à direita novamente, com sofreguidão e apreensivo apertou os passos discretamente. Queria chegar logo em casa. De repente, ouviu o motor da moto se aproximando: sabia que não deveria estar aquela hora na rua. Quando o som já se fazia praticamente ao seu lado, notou que o motorista reduziu a potência do motor para emparelhar a motocicleta. Ouviu-se um único disparo, seco.

Não quiseram acertar-lhe pelas costas, atiraram a queima-roupa na região do peito. Foi muito rápido, não teve tempo de fechar os olhos, caiu para trás com eles abertos e só conseguiu pensar em olhar para o céu. Naquela noite quente, ela estava lá, e chorava com a cena: a lua.

Começou a chover fino, e antes que perdesse totalmente os sentidos, viu um rato atravessar a rua correndo, enquanto a moto se perdia na escuridão que nem ela poderia voltar a iluminar.

Saudades de tempos que não voltam mais

Em um dia chuvoso, andando pelas ruas do Centro, entre aquelas pessoas super apressadas e vendedores ambulantes sempre atentos para "o rapa", cairam na 25 de março.

- Boa tarde, o senhor sabe para qual lado fica o Mercado Municipal?
- Sim, siga em frente e vire a segunda à esquerda.

(...)

Na rua de enfeites natalinos, pensou nas festas que viravam a noite e que, as vezes, acabava tendo que lavar o quintal, pois não tinha sono ou, apenas, para curar a bebedeira.

Logo à frente viu, pela primeira vez - sim, suas visitas nunca tinham dado certo -, o Mercadão e ficou impressionado com sua beleza diante aos outros edíficios ao redor que já estão defasados pelo tempo.

Na rua "K" conheceu o famoso sanduíche de mortadela e enquanto comia olhava ao redor e lembrava de coisas boas. Risadas, conversas, pessoas... Quis que também estivessem ali. Comeria até explodir e conseguiu. O que não era algo tão díficil de acontecer... Teve até espaço para um mousse de chocolate.

A visita o fez voltar no tempo... no tempo que tomava chás gelados com leite no Vale do Anhangabaú; no tempo em que ficava irritadissímo, querendo ir embora rapidamente, na própria 25 de março (que fica próximo ao Mercadão. Se soubesse, ficaria o dia aguardando lá, comendo tudo o que pudesse); lembrou dos natais, dos presentes, da família; de quando a coberta caia sobre seu corpo frio e aquele beijo quentinho na testa de "boa noite, dorme com Deus e com seu anjo da guarda" vinha livrá-lo de qualquer mal.

Lembrou de que, apesar das depressões e pensamentos negativos (e/ou depressiativos), sua vida sempre foi repleta de bençãos e que lembrar-se era o que poderia fazer no presente, pois tudo é cíclico. A vida também é feita de "saudades de tempos que não voltam mais" e que é preciso tentar criar novos momentos inesquecíveis para que ela continue tendo esse valor incomensurável.

(...)

- Obrigado.

Capítulo 1

Subiu as escadas com as mão suadas, apesar do frio, fechando o guarda-chuva às pressas e pensando no que ia dizer, se estava vestido adequadamente e como seria sua vida de trabalhador dali para frente. Entrou e se identificou no balcão de informações como o candidato à vaga de auxiliar. Pediram para que aguardasse alguns minutos.
O cartório estava cheio, com calafrios no estomâgo, sua visão periférica estava temporariamente desativada e não encontrou nenhum lugar para se sentar. Ficou de pé em frente a porta e ao balcão de atendimento (autenticações e reconhecimento de firma).
Notou que os funcionários, lá do outro lado, o olhavam com curiosidade, faziam comentários e sorriam. Ficou mais inseguro e sua gastrite nervosa, que não falta em ocasiões como essa, se manifestou. Tentava adivinhar do que riam, achava que era por causa da roupa. Não se sentia avontade em roupas sociais e saiu de casa acreditando que estava bem vestido com sua mais bela calça, verde musgo, de barra italiana, pois a outra - só tinha duas - era preta e estava desbotada, além de apertada. Sua camisa era cinza e brilhava, era de seda, usava-a para ir às baladas da época que exigiam esporte fino e não autorizavam a entrada com boné, seu melhor amigo. Por alguns instantes pensou que era por isso que riam, sem o boné bordô ou o azul, ficava totalmente nú, com aquele cabelo disforme e crespo.
Depois achou que não era aquilo, tinha cortado há poucos dias, raspado na máquina nº2 e eles não o conheciam com ou sem o adereço, sua segunda pele, não poderiam achar tão estranho, a ponto de rir, pois era o primeiro contato.
seus pensamentos voltaram-se à sombrinha preta que pingava desenfreadamente no chão do recinto e que tinha uma aste quebrada, não dobrava, o que a deixava praticamente aberta, mesmo estando fechada.
Sentia suas orelhas quentes e não aguentava mais aquela situação, queria ser chamado logo para a entrevista, para terminar logo com a agonia.
Olhava disfarçadamente para cada rosto que o olhava do outro lado, através dos quadrados do balcão e após alguns longos minutos foi chamado para sentar-se na mesa de procurações, em breve começaria a entrevista com o oficial...
Os últimos dias foram difíceis, por motivos evidentes e subliminares. No alto da colina, em época de vento forte e frio com sensações térmicas além do que realmente esta, saiu à varanda de madeira, enrolado em sua coberta com estampa xadrez, com um cigarro no beiço e uma xícara de café, enfrentando de maneira pouco sábia, seu resfriado que nunca falta à visita de velho companheiro dos invernos de “peito cheio”.
Olhava para onde não tinha o que ver devido à ausência de luz e relembrava com um sentimento que palavras não explicam, sua juventude turbulenta.
Recordava das amizades, dos lugares, dos amores, dos romances, dos livros e de tudo o que influenciou sua vida e suas crenças. Alguns pensamentos traziam mais saudades do que outros, mas se tivesse uma nova oportunidade faria de maneira diferente. Só para ver onde estaria hoje. Queria saber se o sentido que buscava há tantos anos atrás fosse realmente a solidão que daria a resposta vã.
O cigarro já estava no fim, restava-lhe poucos tragos, não mais que dois, quando lembrou da vidente que passará por seu caminho em uma tarde ensolarada de um verão distante, quando ainda jovem, jogava futebol com seus amigos, que não sabe se estão vivos e que, conseqüentemente, tem ainda menos informações sobre seu paradeiro. Ela parou o garoto e suas palavras emocionadas nunca saíram de sua cabeça confusa. Disse que, infelizmente, morreria cedo, porém pela ética da profissão, não quis dizer qual seria a causa, para isso, era necessário que pagasse pelo serviço espiritual. Sem dinheiro, como sempre, bastou saber que não viveria muito e saiu.
A tosse já fazia ruídos à comunicação interna e decidiu voltar para perto da lareira, lá o clima era mais agradável. Antes de entrar, dando o terceiro trago no cigarro que já quase queimava seus lábios, pensou que se talvez não tivesse fugido e se escondido nas colinas distantes da civilização, já tivesse passado de plano e a vidente teria acertado em sua previsão, que não era de todo erro, pois já não se pode afirmar que está vivo, apenas espera a morte chegar. Sua covardia não permite que faça isso com suas próprias mãos.
"Você quer fogo? Como suporta a batalha contra o cigarro? ... Eu não suportei e desisti. Não do cigarro, mas da batalha. Um dia temos de pesar isso também. A gente calcula se vale a pena viver cinco ou dez anos a mais, sem o cigarro, ou se nos entregamos a essa obsessão vergonhosa, mesquinha, que mata, mas que até então preenche a vida com uma substância única, pacificadora e instigante. Depois dos cinquenta anos ela passa a ser uma das questões sérias da vida. Eu a resolvi, entre espasmos coronários, com a decisão de que vou levar o cigarro até o fim da vida. Não vou abrir mão do veneno amargo, porque não vale a pena. Você diz que não é tão difícil parar? ... É claro que não. Eu também parei, mais de uma vez, enquanto valeu a pena. Só que o dia todo passava com o registro de que eu não fumara. temos de encarar isso de frente um dia. Precisamos nos conformar com o fato de que não suportamos alguma coisa, precisamos de substâncias narcotizantes, e temos de pagar o preço delas. Fica tudo mais simples. A isso dizem: "Você não tem coragem". E eu respondo: "Pode ser que eu não tenha coragem, mas também não sou covarde, porque tenho coragem para aceitar minha obsessão"". (Sándor Márai, p. 164 - As Brasas).

Engraçado... não consigo, e nem sinto muita vontade de, fumar há uns três dias.

Infelizmente, voltei a fumar muito após os três dias.

Eu tenho um amigo, por Carlos Henrique de Castro Assis

Eu tenho um amigo que, para a sua própria sorte, não nasceu no final do século XVIII, ou durante o XIX. Se assim o destino tivesse escolhido, acredito que com a idade que tem hoje já seria um velho, restando para ele pouco tempo entre os vivos. Como sofre de romantismo, padeceria vítima do mal do século. Claro que o romantismo do qual é vítima não é aquele barato e simplista das novelas, mesmo ele servindo de modelo para dramalhões mexicanos – característica que já lhe rendeu um apelido entre os colegas de trabalho. O romantismo que tomou conta desse meu amigo abrange todo o significado da palavra. Ele é um sentimental. Sofre diante da vida por opção, e a enfrenta apenas com os sentimentos. Esforça-se para usar da razão, mas a sua imaginação, a crença na humanidade dos homens e as angustiantes descobertas artísticas e literárias sempre o distanciam de seus objetivos: colocar a cabeça no lugar, organizar os pensamentos e racionalizar, um pouquinho, o mundo. Traga seus cigarros insistentemente, buscando encontrar no tom cinza-azulado da fumaça as respostas para as injustiças incompreensíveis, para os seus prazeres materiais, espirituais e artísticos. Mesmo um fato justificável, por vezes transforma-se em uma injustiça. Identifica-se, também por opção, com os personagens tísicos dos autores russos. Compara-se a Raskholnikov, quando na verdade vive a vida como ela é, no melhor estilo rodrigueano. Refugia uma garrafa de vinho barato entre as camisas, meias e cuecas de seu guarda-roupa – companhia preferida nas noites amenas de outono, ou usada como remédio para as crises crônicas de desilusões amorosas.
A verdade é que esse meu amigo carrega para a mesa do bar boa prosa, histórias, descobertas e um companheirismo sem igual. Não teme assumir o que não sabe e nunca demonstra inveja das conquistas dos seus parceiros; pelo contrário, apóia, incentiva, opina e parabeniza. Brinca com as próprias desventuras amorosas, com a falta de grana e com as angústias imaginadas. Reclama de indisposição para beber ou sair de casa, mas sempre sai e não nega a saideira. Causa nos companheiros risos intermináveis, daqueles que fazem chorar e deixam a barriga doendo. Ouve os conselhos dos colegas com a mesma atenção que damos aos analistas quando encerram a sessão, pensa sobre o assunto e depois de semanas dá notícias de que voltou a cometer os mesmos erros. Ele não sabe, mas de tísico e triste não tem nada. Ama a vida e já está descobrindo a sombra das árvores.
Para a nossa sorte, esse amigo não nasceu no século XVIII ou XIX. Uma companhia como essa precisamos arrastar para a velhice, entregar filho para o batizado, dividir a conta do churrasco de domingo e ligar quando o carro quebra e você deixou o seguro atrasado três meses.

Desilusões de um foca

Aspirante a jornalista sai pelas ruas do bairro do Butantã, redondezas da Universidade São Judas Tadeu, em busca de algo interessante para escrever uma pequena matéria. Um exercício do curso que parecia simples, após alguns “nãos” mudou de figura, o que não desanimou seu espírito de aprendiz.
Saiu entusiasmado e logo parou para tentar convencer um senhor que varria a calçada da faculdade, cantando com uma tranqüilidade sem igual. Aborda-o, explica do que se trata e pede poucos minutos de atenção para “algumas perguntas”. O cidadão que cantava se calou imediatamente e com muita timidez, quase fugindo, desculpou-se e recusou ajudá-lo.
O garoto agradece e não desiste. “Era só o primeiro”; continuou sua caminhada e lembrou-se de uma banca de jornal que chamava sua atenção pelas revistas desbotadas na vitrine, a pouca quantidade de produtos no comércio e o fato de que lá não é vendido nenhum tipo de cigarro.
Aproxima-se cordialmente do senhor sério, que o olhava com desdém, e novamente é recebido com um não. Dessa vez, o motivo era de que o comerciante se disse “novo nessa região” e não tinha “nada para falar”.
Já iniciando seu processo psicológico de preocupação, agradeceu e saiu em busca de outra fonte.
Avista a lanchonete “Os Cobras” e percebe a placa que informa a fundação do pequeno restaurante: “desde 1935”. Os olhos brilharam, entrou com a pauta pronta, em mente; “Será que ainda é do mesmo dono? Ele está ai? Só trabalham familiares? Como era a região quando o restaurante foi criado?”.
Entrou com um sorriso no rosto, se identificou da melhor maneira possível e a “Dona Maria” lamentou não poder ajudá-lo “porque tinha faltado uma funcionária e ainda estava temperando os bifes do almoço”. O estudante, cometendo um erro de ética da profissão, insiste com sua abordagem, pois não queria perder sua matéria. Mais uma tentativa em vão, só piorou sua imagem e saiu novamente para a rua com a conclusão de que não poderia assumir a postura errônea em uma, possível, nova oportunidade.
Desanimado e inseguro não conseguiu nenhum personagem disposto a colaborar com o seu trabalho, mas voltou satisfeito, pois aprendeu que o ofício não é tão simples quanto parece. Seu laboratório o fez perceber que, na verdade, ele foi o personagem da história.
Voltando para a sala, feliz com a experiência, suspirou: “nem sempre o mar está para peixe” e sentou-se pensando que o importante é não desistir.

Use Filtro Solar

Em aula, o professor dividiu com a turma um "filme" que, provavelmente, já é conhecido por muita gente. Incluindo você que está lendo minha postagem.
O conheci há alguns anos e nunca tive uma opinião sobre. Talvez pelo pré-conceito de tê-lo visto sendo apresentado por Pedro Bial. Besteira.
Porém, na aula, entre as pescadas e lágrimas de olhos com muito sono, decidi públicá-lo aqui em "Uns tragos...".
O professor explicou que foi criado pela agência de publicidade DM9 há muitos anos atrás para uma festa de debutante, por um cara chamado Mary Schmich e só após alguns anos foi liberado que a Globo fizesse a versão traduzida na voz do jornalista.

Segue, abaixo, o texto "Use filtro solar".

Se gostar, pesquise no You Tube a versão em video. Pode ser agradável.


Use Filtro Solar

Nunca deixem de usar filtro solar!
Se eu pudesse dar uma só dica sobre o futuro,seria esta: use filtro solar.Os benefícios a longo prazo do uso de filtro solar
estão provados e comprovados pela ciência;
já o resto de meus conselhos não tem outra base confiável além de minha própria experiência errante.

Mas agora eu vou compartilhar esses conselhos com vocês.
Aproveite bem, o máximo que puder, o poder e a beleza da juventude.
Ou, então, esquece... Você nunca vai entender mesmo o poder
e a beleza da juventude até que tenham se apagado.
Mas, pode crer, daqui a vinte anos, você vai evocar as suas fotos e
perceber de um jeito - que você nem desconfia hoje em dia
quantas tantas alternativas se lhe escancaravam à sua frente,
e como você realmente tava com tudo em cima.
Você não é tão gordo(a) quanto pensa!

Não se preocupe com o futuro.
Ou então preocupe-se, se quiser, mas saiba que pré-ocupação
é tão eficaz quanto mascar chiclete
para tentar resolver uma equação de álgebra.
As encrencas de verdade de sua vida tendem a vir de coisas que nunca
passaram pela sua cabeça preocupada, e te pegam no ponto fraco às quatro
da tarde de uma terça-feira modorrenta.
Todo dia enfrente pelo menos uma coisa que te meta medo de verdade.
Cante.

Não seja leviano com o coração dos outros.
Não ature gente de coração leviano.
Use fio dental.
Não perca tempo com inveja.
Às vezes se está por cima,
às vezes por baixo.
A peleja é longa e, no fim,
é só você contra você mesmo.
Não esqueça os elogios que receber.
Esqueça as ofensas.
Se conseguir isso, me ensine.
Guarde as antigas cartas de amor.
Jogue fora os extratos bancários velhos.
Estique-se.

Não se sinta culpado por não saber o que fazer da vida.
As pessoas mais interessantes que eu conheço não sabiam,
aos vinte e dois, o que queriam fazer da vida.
Alguns dos quarentões mais interessantes que conheço ainda não sabem.
Tome bastante cálcio.
Seja cuidadoso com os joelhos.
Você vai sentir falta deles.
Talvez você case, talvez não.
Talvez tenha filhos, talvez não.
Talvez se divorcie aos quarenta, talvez dance ciranda em suas bodas de diamante.
Faça o que fizer, não se auto-congratule demais, nem seja severo demais com você.
As suas escolhas tem sempre metade das chances de dar certo.
É assim pra todo mundo.

Desfrute de seu corpo.
Use-o de toda maneira que puder. Mesmo.
Não tenha medo de seu corpo ou do que as outras pessoas possam achar dele.
É o mais incrível instrumento que você jamais vai possuir.
Dance.
Mesmo que não tenha aonde além de seu próprio quarto.
Leia as instruções, mesmo que não vá segui-las depois.
Não leia revistas de beleza. Elas só vão fazer você se achar feio.

Dedique-se a conhecer os seus pais.
É impossível prever quando eles terão ido embora, de vez.
Seja legal com seus irmãos. Eles são a melhor ponte com o seu passado
e possivelmente quem vai sempre mesmo te apoiar no futuro.
Entenda que amigos vão e vem, mas nunca abra mão de uns poucos e bons.
Esforce-se de verdade para diminuir as distâncias geográficas
e de estilos de vida, porque quanto mais velho você ficar,
mais você vai precisar das pessoas que conheceu quando jovem.

More uma vez em Nova York, mas vá embora antes de endurecer.
More uma vez no Havaí, mas se mande antes de amolecer.
Viaje.

Aceite certas verdades inescapáveis:
Os preços vão subir. Os políticos vão saracotear.
Você, também, vai envelhecer.
E quando isso acontecer, você vai fantasiar que quando era jovem,
os preços eram razoáveis, os políticos eram decentes,
e as crianças, respeitavam os mais velhos.
Respeite os mais velhos.
E não espere que ninguém segure a sua barra.
Talvez você arrume uma boa aposentadoria privada.
Talvez case com um bom partido.
Mas não esqueça que um dos dois pode de repente acabar.

Não mexa demais nos cabelos senão quando você chegar aos quarenta
vai aparentar oitenta e cinco.
Cuidado com os conselhos que comprar,
mas seja paciente com aqueles que os oferecem.
Conselho é uma forma de nostalgia.
Compartilhar conselhos é um jeito de pescar o passado do lixo, esfregá-lo,
repintar as partes feias e reciclar tudo por mais do que vale.

Mas no filtro solar, acredite!

"Por purificação..."

Ari passou dias distante dos afazeres da grande cidade. Dedicou-se totalmente ao cuidado de suas terras. Experimentou algumas plantações. Queria saber o que nasceria por aqueles lados, pretendia cultivar.

Cansou e voltou para a vida turbulenta das buzinas e fumaças. Na biblioteca de Babel conheceu novos exemplares sobre pensamentos emergidos e sublimados durante o cuidado com adubos, pegou-os, colou-os debaixo do braço e procurou uma boa sombra para iniciar o exercício de leitura.

Encontrou e ficou ali, "meio deitado-meio sentado", entre a grande raiz imponente que saltava o chão mas não perdia a firmeza e a personalidade, com os livros no colo, protegendo-se dos raios solares que poderiam atrapalha-lo, durante horas. A leitura o envolvia.

Levantou-se, saiu do processo cartático e sorriu... O cheiro da árvore era bem agradável.